"Meu caro Edney, eu conheci a Salmo XXIII alguns anos atrás, por um amigo meu, o Beto Scretas, que frequenta direto a cidade de Monte Alegre do Sul, que fica a umas 2 horas de São Paulo, quase divisa com o sul de Minas.
Monte Alegre tem muitos alambiques.
Pois o Beto me levou um dia lá na fazenda Salmo XXIII, pra tomar a cachaça do Edson Peres. Maravilhosa… Acho q é a melhor que eu já tomei (não vou perder tempo aqui tentando descrever, que eu não sou louco…). Mas é cheirosa, macia, saborosa, enche a gente de espírito.
Aí, era assim: chegava lá, ele logo botava um copo pra cada um, e muita conversa, e bota um queijinho (que ele também fazia lá), e conversa, e bota outro copo, e mais um tira gosto, e no meio disso tudo ele ia contando como é que ele fazia a cachaça.
Eu sou leigo, não entendo bem o processo, mas descrevendo leigamente, começa que a fazenda dele fica num altiplano, já imaginou? Vc sai da estrada, pega uma estradinha de terra e vai subindo, subindo, subindo… Chega lá em cima, tem um valezinho, a fazenda é ali. Pois não é só a pinga que é feita ali. A cana também é plantada ali. E fermentada ali. Ele falava que era fermentada no ananás, que é um abacaxi do mato (que ele tinha ali também). Depois, passava por aquele processo todo, no alambique que ele limpava muito bem pra ela descer macia e saudável, e ele botava pra descansar por um tempo nas "cartolas", como ele chamava aqueles barrilzões de carvalho que ficavam numa espécie dum porão úmido e escuro. E ela só ia sair de lá da fazenda na mão de quem comprasse (ou na goela de quem tomasse...), já que ele não vendia no atacado. O Edson era escultor, então eu acho que de um certo modo ele esculpia cada safra, cada garrafa de Salmo… E vendia de uma em uma pra quem fosse lá. E provasse. E conversasse.
Agora em setembro ele morreu. Que triste… Eu estava lá, casualmente. A minha tristeza, além de ser pela pessoa, pelo bom papo, pela boa pinga, é porque quando morre um cara desses, que meio que é um guerilheiro-artesão-inventor, morre também um pouquinho duma maneira de se ver o mundo. Uma maneira pacífica, pessoal, que resiste, temperando força e marotice com talento e utopia, a essa vida medíocre que a pressa e a pressão tentam impor às gentes. Quando morre um cara desses, morre um pouquinho do espírito que dá valor a esse valor precioso que é o tempo. O tempo que leva pra fazer uma pinga com espírito. E o tempo que leva pra beber tal pinga com espírito.
O tempo preciso pruma coisa criar sabor.
Pois agora, como se diz no futebol, é levantar a cabeça e partir pra próxima. Porque, como acontece em toda boa história de quem detém um segredo sagrado, como o Edson, sempre tem alguém ao redor bebendo (oops…) a palavra sagrada. E corre a lenda que o filho dele conhece o caminho das pedras pra fazer a Salmo, timtim por timtim…
Que Deus abençoe o garoto e lhe guie o caminho, porque o mundo não pode ficar sem espírito…"
abração
Mauricio Pereirahttp://www.mauriciopereira.com.br
http://www.myspace.com/mauriciopereirahttp://br.youtube.com/user/mug5599PS - pra complementar o meu relato, adiciono aqui o texto do Salmo XXIII, que é pra a gente sentir melhor essa pinga, e o texto e o mp3 duma canção minha que fala sobre gentes como o Edson Peres, chamada "Inventor Brasileiro", que é pra a gente honrar um sujeito desses.